quarta-feira, 26 de agosto de 2015

Aos Interessados em Viagens Fredianas.

Esses dias dei um banho no meu gato, o Fred, e não pude deixar de perceber que ele já não é só um simples bichano. Fred agora é um planeta. Poderia atribuir “VB12 41 9” como nome, ou algo nessa linha, mas diferente da NASA, prefiro ser original - eu também não ia lembrar um código desses. O fato é que depois do banho, ao pentear seu pelo, deparei-me com um pontinho preto saltitante dançando no meio dos fiozinhos da orelha na coreografia de Gene Kelly em “Cantando na chuva”. Minha expressão imagino ter sido de surpresa e o que me lembro de fazer depois de sair do transe foi agarrar com a pontinha das unhas do indicador e polegar a curiosa criaturinha. Se eu fosse leiga no quesito Fred ou ainda que apenas observasse a situação com olhos despretensiosos, diria se tratar de uma simples pulga.
Caro leitor, a pretensão em mim corre solta. Não, não era só uma pulga. Longe disso. Aquela notável pulga, com esforço e dedicação, seria o novo Baryshnikov. Alguém deveria descobri-la e apresentá-la a um grande da dança. Alguma Ana Botafogo, uma vez que Fred fica na galáxia Brasil. Arriscaria até dizer que seu Tour Jeté era perfeito, pois em uma fração de segundos a bichinha pulou de meus dedos, girou no ar quase em câmera lenta, como se ouvisse o violinos ao fundo e pousou na nuca do gato, desaparecendo ágil antes que eu esboçasse qualquer reação. Sequer esperou pelas palmas. Deveria ter prosseguido a escovação. Deveria tê-la deixado ir, mas eu queria conhecer mais dos emaranhados e misteriosos pelos.
 Posicionei Fred em cima de uma toalha branca- sob miados protestantes, e pus-me a desbravar o admirável cenário. O “trás dos montes” da cabeça peluda. Devo dizer, o lugar é bastante interessante. Assemelha-se a uma cidade bem desenvolvida. A parte de cima, coberta por fios curtos faz jus a uma aparada plantação. A finura na base e o espigo na extremidade superior indica nitidamente ser de milho. Do lado leste encontrei os anfitriões. Pulgas muito simples, mas hospitaleiras e amáveis. Uma família pequena: pai, mãe e a lendinha. Cuidavam do replantio.  Abaixo, na curvatura do tronco, vi com prestígio o grande vale que abriga a cidade. Formado há muitos anos, antes da grande castração, na era Paleozóica, quando Fred ainda era magro. Essa magnífica formação geológica é o lar de cerca de 20 a 30, 5 cidadãos. Sem dúvida, disparadamente a mais populosa metrópole. Um luxo. Bem desenvolvida, sulcos-estradas bem construídas, sangue bom - viscoso como o mais caro cimento, mão-de-obra naturalmente especializada, fora o processo de cicatrização desempenhado com sucesso. As autoridades se mostram competentes na administração. Há poucas casas. Os pontinhos pretos se amontoam um em cima do outro indicando a predominância dos apartamentos. Tudo isso sem descuidar das áreas reflorestadas, uma vez que todo o pelo desmatado tem espaço para crescer novamente.
Minha curiosidade e fascínio só fizeram aumentar. Busquei outros locais. Passei a examinar o queixo e o que encontrei por lá foi um contraste notável. Diferentemente da sociedade desenvolvida da nuca, no queixo o modo de vida é milenar. A população sobrevive não só do sangue – abundante na região- como faz também diversas viagens às margens da boca. Durante o tempo em que fiquei por ali, notei que a língua funciona como o leito do mar, banhado periodicamente pelas ondas-saliva. Em época de tempestades, estas pulgas Fenícias se abrigam na caverna localizada no espaço mais estreito do pescoço, a articulação. Adaptadas, elas desenvolveram um calendário próprio para calcular o intervalo de chegada das cheias. Mais ou menos de quatro em quatro horas, quando o Fred toma água.
Apesar da vontade de explorar as patas, realizar a rotação de um planeta estressado por um banho longo e já cansado de ser feito -dele mesmo- e sapato não é simples. Pode vir a ser até abuso. Resolvi, então, ignorá-las partindo do pressuposto de que a extremidade sul raramente recebe sol e como a Antártida da Terra, a vida lá deve ser deixada em certa paz. 
Foquei na milha que me restava para chegar à savana. Estendendo-se por todo o tronco mais o rabo, este vasto e selvagem território é uma incógnita para os pesquisadores. A vegetação que o recobre é sumamente densa e, por se tratar da pelagem com mais coloração de todo o felino, dificulta observar as criaturas que ali habitam. Meu imaginário se fortalece criando figuras canibais, rituais antropofágicos, pontinhos pretos das mais diversas culturas e anatomias, confesso que cheguei a ter à mão um óculos escuro, caso me deparasse pelo caminho com uma pulga munida de lança ou arco e flecha, porém, após muito remexer na latitude que me cabia não observei nada mais que novas formas de pelo molhado.
O ponto final de minha expedição era o verdadeiro desafio. O que os antigos chamam de: “A Cola”. Essa pequena localidade, abrigada num cantinho escuro abaixo da cauda é um lugar, para muitos, inóspito. Abafado, úmido e de odor fétido. Talvez, os fenícios tenham se mudado daqui para a boca em busca de uma vida com mais frescor. Talvez esta seja a localização real do Triângulo das Bermudas. Não sei ao certo. Não fiquei muito tempo. Apressava-me a sair pensando nas possíveis sequelas que a experiência poderia deixar ao meu aparelho respiratório. Entretanto, gostaria de relatar o que me ocorreu no momento em que me afastava. 
Um singelo pontinho preto rasgou com determinação a relva macia precedente do redemoinho e lá dentro, com a coragem de Hércules, se jogou sem medo do pior, segura do seu nado, como se fosse o próprio Poseidon. Ao perdê-la de vista, pensei comigo: será ela uma originária dos interiores ou uma perdida neste labirinto que ansiando como nunca a hora de encontrar o fim atirou-se nas trevas de um futuro incerto?

Tudo pode ser como também nada. Numa coisa eu creio. Em toda a sociedade, sempre há o maldito tiro que insiste em sair pela culatra.

Juliana*

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